Blog | Expertise

Crowdfunding Glebba

Economia compartilhada: o que é e como vem revolucionando os mercados tradicionais

Escrito por

Renato Haidamous Rampazzo


Advogado formado pela Universidade de São Paulo (USP) e programador autodidata. Escreveu a tese "Desafios jurídicos da economia compartilhada no Brasil" e possui experiência em Direito Digital e Startups. Atualmente é desenvolvedor de produtos da legaltech Lexio.


O termo economia compartilhada (sharing economy) tem sido utilizado para designar modelos de negócios dos mais variados tipos, desde aplicativos de carona, hospedagem e passeadores de cães até plataformas de financiamento coletivo (crowdfunding). Sobretudo a partir de 2008, plataformas dessa nova economia começaram a se fortalecer no mundo todo, junto da promessa (hoje já concretizada) de que revolucionariam mercados tradicionais.

Nesse cenário, este artigo busca esclarecer alguns pontos que você pode estar se perguntando: o que significa economia compartilhada? O que essas plataformas têm em comum? Por que causam disrupção?

Na sequência, falaremos sobre Fintechs e, especificamente, como plataformas de crowdfunding vêm revolucionando a qualidade e o acesso a serviços financeiros.

 

O que é economia compartilhada?

A economia compartilhada é composta por plataformas (geralmente apps ou websites) que facilitam a transação de bens e serviços diretamente entre indivíduos [1]. Nesse sentido, elas promovem a descentralização do fornecimento de capital e trabalho na sociedade, que passa a provir de multidões de indivíduos e não mais de algumas empresas. Por exemplo, o Airbnb facilita que seus usuários se hospedem em residências de moradores locais, em vez de hotéis; plataformas de crowdfunding oferecem aos empreendedores uma multidão de investidores, como alternativa aos empréstimos do banco.

O verbo “compartilhar” da economia compartilhada costuma ser empregado não no sentido de doação ou altruísmo, e sim de aproveitamento da capacidade ociosa de bens e serviços, alocando-se mais eficientemente tais valores na cadeia produtiva. Geralmente, a capacidade ociosa dos bens seria simplesmente perdida (evita-se isso, por exemplo, ao alugar um quarto da casa que ficaria vazio, ou ao dividir o espaço do carro no Blablacar ou Waze Carpool) ou apropriada por um intermediário (como o spread bancário). A economia compartilhada, ao evitar tais desperdícios, entrega mais valor aos seus participantes.

 

O encontro entre estranhos

Para atingir tais objetivos, as plataformas da economia compartilhada constroem marketplaces que inspiram a confiança, o encontro e a coordenação entre estranhos. Há alguns anos você provavelmente não entraria no carro de um desconhecido para seu transporte diário, seja pelo medo ou pela dificuldade prática de combinar toda logística e pagamento. Hoje, dezenas de apps trazem um motorista até seu local em poucos minutos, você pode ver suas avaliações passadas e o pagamento é processado automaticamente.

 

Efeito sobre os mercados tradicionais

A superação desses desafios práticos provoca um processo de desintermediação dos players tradicionais. Fornecedores tradicionais, como taxistas, bancos e hotéis, que por esses motivos (acompanhados de barreiras regulatórias) monopolizavam muitos serviços de seus setores, estão perdendo cada vez mais espaço para as transações diretas entre os indivíduos.

 

Plataformas digitais facilitadoras

A economia compartilhada fez surgir um novo tipo de intermediário, mais parecido com um facilitador, cujo papel é construir e manter um marketplace de transações peer-to-peer [2]. O capital das plataformas digitais consiste principalmente em um software (website ou app) e seu know-how sobre o negócio transacionado, enquanto os bens ou serviços fornecidos nas transações provêm da multidão de peers. O papel deste novo intermediário é, portanto, criar as ferramentas e o ambiente corretos que reduzam os custos de transação entre os dois lados.

 

Fintechs e crowdfunding: a revolução dos serviços financeiros

Esse cenário de disrupção é exatamente o caso das Fintechs, empresas que utilizam a tecnologia para competir com as instituições financeiras tradicionais, desafiando seus modelos de negócios amplamente estabelecidos. A Glebba, por exemplo, plataforma de crowdfunding de investimentos, utiliza a tecnologia para construir um marketplace seguro e transparente em que empreendimentos imobiliários, previamente aprovados por sua curadoria, recebem investimentos diretos de uma multidão de indivíduos.

 

Vantagens do crowdfunding imobiliário

A desintermediação do banco aqui provocada produz os efeitos de:

– Rentabilidade: A maior retenção de valor na mão dos peers se traduz em maior rentabilidade do investimento;
– Transparência: Pois cada um sabe onde seu dinheiro está sendo investido;
– Melhor produto: Decorrência da competição e diversificação das ofertas, que aumenta a variedade e qualidade de produtos; e
– Maior acesso: Como já apontado em relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento, a ampliação do acesso a serviços financeiros pela população e empresas reduziram os custos de entrada e assim, de utilização dos serviços.

Antes, o investimento imobiliário estava restrito a grandes empresas ou investidores, que dispunham de milhões de reais. Agora, é possível que qualquer pessoa invista com valores muito mais baixos, sem abrir mão do rendimento.

 

Crowdfunding no mundo e no Brasil

Tais vantagens são confirmadas pelo crescimento exponencial do volume total de crowdfunding no mundo. Recente estudo publicado pelo Prof. Raghavendra Rau, da Universidade de Oxford, aponta que o volume global total de todas as modalidades de crowdfunding atingiu, em 2016, US$ 290 bi – um crescimento médio anual maior do que 250% –, sendo a China responsável por 83% dessa soma, seguida pelos EUA com 12% e pelo Reino Unido com 2%.

Além disso, o movimento de crescimento do crowdfunding no Brasil é favorecido pela Instrução CVM 588, que regula o crowdfunding de investimento feito por meio de plataformas digitais. Isso porque, ao publicar a Instrução, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) levou em consideração uma ampla fase de consultas públicas, em que os participantes do mercado foram ouvidos.

Assim, a norma já nasceu alinhada com a realidade do mercado, servindo como um instrumento de segurança para as transações realizadas nesse meio, e não uma barreira regulatória. Assim, o investidor pode certificar-se de que a plataforma de crowdfunding é uma empresa séria constatando que ela está registrada junto à CVM (como é o caso da Glebba), o que é um indício de que segue a Instrução CVM 588, garantindo os direitos previstos na norma aos seus investidores.

 

Conclusão

Novos modelos de negócio impulsionados por ferramentas tecnológicas têm alterado a forma como produzimos, consumimos, financiamos empreendimentos e, enfim, vivemos. Como resultado, temos o caso emblemático que perpassa por diversos setores da economia é a ascensão das plataformas digitais que constroem ambientes nos quais os indivíduos se relacionam diretamente, em vez de depender dos intermediários tradicionais.

A assim chamada economia compartilhada encontrou em alguns setores feroz resistência dos “incumbentes” (fornecedores já estabelecidos no mercado), que se utilizam de barreiras regulatórias para tentar evitar o inevitável. Já no crowdfunding de investimentos, assistimos recentemente ao cenário oposto, tendo a CVM assumido postura proativa para estimular o desenvolvimento desse setor, que tende a crescer exponencialmente no Brasil, como no mundo todo.

 


Referências

[1] Muitas vezes, sharing economy (economia compartilhada, ou economia do compartilhamento) também é referida como “collaborative consumption”, “on-demand economy”, “crowd-based capitalism”, “the mesh” ou “gig economy”, entre outros. A origem da expressão remonta ao artigo “Sharing Nicely: On Shareable Goods and the Emergence of Sharing as a Modality of Economic Production” do professor de Harvard, Yochai Benkler, escrito em 2004, quando descreveu os fenômenos de caronas e computação distribuída como exemplos de uma nova forma de produção, que aproveita a capacidade ociosa de bens subutilizados e distribuídos na sociedade (no caso, carros e computadores).

A partir de 2008, a sharing economy começou ficar mais próxima do sentido amplo que vemos hoje, com a ascensão de diversas plataformas online que facilitam a transação entre peers (grosso modo, pares ou indivíduos em condições parecidas), seguida pelo lançamento do livro “What’s mine is yours: the rise of collaborative consumption” de Rachel Botsman e Roo Rogers.

[2] Conforme o Cambridge Dictionary, o substantivo peer, em inglês, significa “a person who is the same age or has the same social position or the same abilities as other people in a group”, ou seja, pares ou indivíduos em condições semelhantes.



2 Comentários

  1. José Luís Nunes disse:

    Belo texto! Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



As sociedades empresárias de pequeno porte e as ofertas apresentadas nessa plataforma estão automaticamente dispensadas de registro pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM. A CVM não analisa previamente as ofertas. As ofertas realizadas não implicam por parte da CVM a garantia da veracidade das informações prestadas, de adequação à legislação vigente ou julgamento sobre a qualidade da sociedade empresária de pequeno porte. Antes de aceitar uma oferta, leia com atenção as informações essenciais da oferta, em especial a seção de alertas sobre riscos.

INSTRUÇÃO CVM Nº 588, DE 13 DE JULHO DE 2017